Antoniquinho e o Dr. Progresso

    Certa vez, em um dos estudos que fazia sobre Cachoeiro de Itapemirim, me deparei com informação de que Sérgio Buarque de Holanda viveu por aqui durante um curto tempo. Nada mais e nada menos do que o autor de Raízes do Brasil (1936). Sabem? Pois busquem aí: é das obras de primazia de uma análise sensível e crítica sobre a constituição de nossa história. E como se isso não bastasse, também é ele o pai de Chico Buarque. Inclusive, era assim que ele gostava de ser lembrado, “o pai do Chico”. Da primeira vez que soube de sua experiência em Cachoeiro, não pude dispensar atenção a conhecer com mais detalhes o que é que ele veio aprontar nesta cidade. Mas, recentemente, tive a oportunidade de revisitar sua história e entender melhor sua trajetória por aqui.

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    A história do Sérgio Buarque em Cachoeiro começa em 1926, quando Antônio Belisário Vieira da Cunha o convida para compor a redação de um periódico que ele havia fundado em 1925, de nome Progresso. Acontece que, nas pesquisas sobre Sérgio, acabei me deparando com o Vieira da Cunha: jornalista, caricaturista, pré-modernista, crítico de arte. Eu não poderia falar do Sérgio em Cachoeiro sem antes conhecer e falar do Vieira da Cunha em Cachoeiro. Pois que bairrista sou eu se a ordem não for: Cachoeiro, depois Brasil, depois mundo? Deixei um pouco de lado o Sérgio e fui à procura de informações sobre Antônio Vieira da Cunha, que à primeira vista só havia se mostrado a mim como A. B. da Cunha. Daí em diante as surpresas se acumularam e eu descobri um grande artista na Cachoeiro do início do século XX. E, digo mais, ele não era o único.

    Pra começo de conversa, apresento os Vieira da Cunha. Os, pois eram três: Vieira da Cunha pai, o Dr. Belisário; Vieira da Cunha irmão mais velho, João Belisário; e, por último, o Vieira da Cunha que mais nos interessa, o Antônio, Antoniquinho, o irmão mais novo. Viviam os três na Fazenda Prosperidade, onde Antônio nasceu. Atualmente, o distrito de Prosperidade pertence ao município de Vargem Alta. Contudo, no final do século XIX, quando do nascimento do menino Antônio, a cidade ainda não existia, e a fazenda era considerada parte de Cachoeiro de Itapemirim. Portanto, Antônio Vieira da Cunha é cachoeirense!

    Pois foi nessa fazenda, no interior de Cachoeiro, que os Vieira da Cunha criaram O Martello, em 1904, um mini jornal feito de forma totalmente artesanal, em folha de papel almaço, onde o Dr. Belisário, que além de médico era poeta, assinava suas poesias com o pseudônimo Phidias, enquanto o filho mais velho, João, publicava versos e outros escritos sob a alcunha de Jobeli. Já Antoniquinho, que até a primeira década dos anos 1900 era uma criança, mesmo assim, já demonstrava suas habilidades como caricaturista, assinando seus desenhos como A. Vieira. O Vieira da Cunha que convidou o Sérgio para vir a Cachoeiro, começou sua carreira no mundo das artes bem novo mesmo. Durante sua infância e parte da adolescência, enquanto seu pai promovia encontros político-literários na fazenda, ele se ocupava em reparar minuciosamente os convidados, e desenhá-los. Era o princípio de sua trajetória como caricaturista, que viria a ser aprimorada com a atuação n’O Martello e, posteriormente, em periódicos do Rio de Janeiro, como em O Malho. Antes de chegar no Rio, ainda em Cachoeiro, Vieira da Cunha também contribuiu com seu pai e irmão na edição e confecção de outro periódico, que teria surgido em lugar d’O Martello, em 1910, de nome O Álbum. Este era inspirado em publicações francesas, enquanto aquele se assemelhava mais com as produções jornalísticas e humorísticas brasileiras do início do século XX, a exemplo de O Malho.

    A segunda fase do desenvolvimento artístico de Vieira da Cunha se passa no Rio de Janeiro. Por volta de 1912, ainda adolescente, mas já com experiência em edição gráfica, ele chega a então capital do Brasil e passa a atuar em diversos jornais, entre eles o Correio da Noite, A Tribuna, A Manhã, O Dia e A Nação. Em 1915, funda com o amigo português Correia Dias uma editora de livros e revistas chamada Apollo. Correia Dias era um importante nome no mundo artístico, de envergadura internacional, pois havia participado do movimento modernista em Portugal. Vieira da Cunha, então, o escolheu como diretor de arte. Juntos, imprimiram uma nova estética à tipografia carioca nas primeiras décadas do século XX. Os dois, inclusive, moravam na mesma residência em Botafogo, onde montaram um ateliê e, frequentemente, promoviam encontros artístico-intelectuais. Foi, portanto, durante sua estadia no Rio que Vieira da Cunha conheceu várias figuras de destaque no cenário da vanguarda pré-modernista. Dessa forma, tornou-se ele, pré-modernista também.

    Antes de retornar para Cachoeiro, Vieira da Cunha escreveu um artigo publicado na Revista Nacional do Rio de Janeiro, em 1919, e republicado pela revista Vida Capichaba, em 1927, onde exprimia seu posicionamento a favor da valorização da arte nacional, em detrimento das produções artísticas que eram importadas pela elite brasileira da época. O artigo, intitulado “Nacionalismo na Arte”, foi um verdadeiro ato de protesto em defesa da arte genuinamente brasileira.

    Quando, em meados dos anos 1920, retorna para a fazenda onde nasceu, faz dela o mesmo que seu pai havia feito durante sua adolescência, costume que herdou dele e colocou em prática em sua residência no Rio: local para receber amigos e promover a cultura brasileira. Parafraseando Marco A. de Carvalho, Vieira da Cunha fez da Fazenda Prosperidade o “Olimpo intelectual de Cachoeiro de Itapemirim”.

    Agora, enfim, chegamos ao momento em que as histórias de Sérgio Buarque, o Dr. Progresso, e Vieira da Cunha, se cruzam. Mais uma vez, o intelectual capixaba se mostrou à frente de seu tempo ao fazer algo de inédito: criou o primeiro periódico de circulação diária em Cachoeiro de Itapemirim. Além disso, convidou um jovem, recém formado em Direito no Rio de Janeiro, para compor a redação. Há registros de que Sérgio tenha participado, além de o Progresso, também da redação de O Clarim, criado em 1928, do qual também fez parte Rubem Braga. Por aqui, Sérgio adquiriu hábitos boêmios e, por isso, muitos cachoeirenses não o levavam a sério. Rubem Braga conta, inclusive, em crônica dedicada a Sérgio, o Dr. Progresso, que quando este partiu de Cachoeiro e fora para Alemanha a convite de Assis Chauteaubriand, o povo não acreditou que se tratava do mesmo que vivia aos porres com o amigo Ricardo Gonçalves pela cidade.

    Não há registros muito precisos quanto ao tempo de permanência de Sérgio Buarque em Cachoeiro. Contudo, considerando que ele tenha participado de O Clarim, e que este tenha sido fundado em 1928 e, ainda, que tenha ido para Alemanha em 1929, podemos acreditar que ele possa ter permanecido em Cachoeiro até meados de 1928, mesmo ano em Vieira da Cunha teria findado o Progresso, retornando, em seguida, para o Rio de Janeiro, onde passou a trabalhar na Biblioteca Nacional. Lá, dedicou-se aos estudos do indianismo de José de Alencar. Morreu em 1956.

    A rápida estadia de Sérgio Buarque de Holanda em Cachoeiro, certamente o rendeu boas experiências e aprendizados que o inspiraram a escrever Raízes do Brasil, publicado pela primeira vez em 1936. Em um artigo sobre o Espírito Santo, por exemplo, escrito em 1927, profere:

    “Em Cachoeiro do Itapemirim, uma cidade moderna e com melhoramentos que proporcionam o melhor conforto aos seus habitantes, com esgotos, calçamento, iluminação elétrica e até uma linha de bondes elétricos […] Um centro social bastante adiantado, não senti no povo essa resistência a certa ordem de trabalho, tão geral até hoje no Brasil, que herdamos dos tempos em que as famílias mandavam para o comércio os filhos que ‘não davam para nada’. Ali, essa tradição já não tem sentido ou talvez ainda não tenha sentido. Há alguns anos, os moços da melhor sociedade entregavam-se sem nenhum constrangimento a profissões como de alfaiate e tipógrafo. Havia mesmo para eles certo tom de nobreza nesses ofícios, de modo geral nenhuma profissão era tabu, mesmo para os que dispunham de maiores recursos […]”

    Apesar de ter ultrapassado os limites gráficos para uma coluna virtual e, ainda por cima, para um texto inaugural, acredito que o que eu tenha escrito seja insuficiente para demonstrar o quanto o capixaba Vieira da Cunha e o paulista Sérgio Buarque representaram para a história e cultura de Cachoeiro de Itapemirim. Todavia, se através da leitura dessas poucas páginas, o/a cachoeirense, ou qualquer que seja o/a entusiasta da história do município e região, tenha despertado certa curiosidade para prosseguir com os estudos sobre esses senhores e seus feitos, acredito que terei cumprido minha missão.

    Já que as limitações gráficas não me permitem prosseguir em pelo menos mais umas cinco laudas, contenho-me em deixar a seguir a relação das referências que utilizei, a fim de contribuir para que outros usufruam delas, prossigam e se aprofundem nos estudos:

    – Rubem Braga, crônica: O Dr. Progresso acendeu o cigarro na lua;

    – Levy Rocha: De Vasco Coutinho aos Contemporâneos;

    – Levy Rocha: Crônicas de Cachoeiro;

    – Evandro Moreira: Cachoeiro: uma história de lutas (vol. I e II).

    – Marco Antônio de Carvalho: Rubem Braga: um cigano fazendeiro do ar;

    – Vanessa Pereira Vassoler, dissertação (UFES): Vieira da Cunha: O paladino capixaba da arte brasileira;

    – Eduardo Henrique de Lima Guimarães, tese (UFPE): O Atual e o Inatual em Sérgio Buarque de Holanda;

    – Periódicos microfilmados: O Progresso (edições de 1925, 1926 e 1927), revista literária Dom Casmurro (1942).

    – Menção honrosa à produção datilografada, em brochura, produzida por Levy Rocha, em 1969, não publicada, denominada Os Vieira da Cunha e o jornal “O Martello”.

     

    9 COMENTÁRIOS

    1. Essa minha sobrinha linda vai longe nas suas pesquisas.
      A disciplina de História amplia ainda mais o conhecimento das pessoas e nos faz ainda mais humanos!
      Continua assim, você é um orgulho para a nova geração que é a sua!
      Abraços!!!!

    2. Texto perfeito! Cachoeiro é, realmente, “a capital secreta do mundo”!!!
      Uma pena as limitações gráficas… Deu vontade de ler mais e mais!!!

      Parabéns pela coluna. Cachoeiro merece destaque!

    3. Que descoberta inesperada saber que um Buarque de Holanda residiu, mesmo que de forma breve, na Capital Secreta e, ainda, que descoberta formidável esta coluna rica em detalhes sobre a história de nossa cidade. Parabéns e obrigado pela leitura proporcionada Srta. Marchiori.

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