Vai ser, Helinho!

    Foto: André Fachetti

    Não lembro o ano, foi uma passagem. Sentado num bar de Guaçuí com alguns amigos, o homem chega desgrenhado, trazido pelo tempo. Sentou-se, acreditando na paz entre os homens e mirou o longe. Era um homem com fome e eu já o conhecia de outros carnavais. Helinho estava ali. Aquele homem, filho de quem era, irmão de quem era, ali do meu lado com fome. Pedi ao garçom para entregar o pedido que ele quisesse. Esse homem era uma lenda e eu, sem intimidade, não sabia o que falar, como chegar, o que fazer.

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    Anos se passam. Helinho sumiu, mas está de volta. À cidade, seus passos mudaram, sua figura mudou. Maria Elvira me conta que ele abandonou o álcool. Só guaraná, agora. Helinho tem emprego, tem casa, tem amigos, tem dignidade. Helinho, agora, para uma parcela da sociedade, existe. Aquele homem, um happening ambulante, incompreendido, jogado num ostracismo de uma sociedade que não aceita gente que não toma banho ou fala errado, agora estava ali, entre todos e aceito. Qualquer coisa que se diga soa hipócrita diante do jogo social estabelecido pela simples existência desse homem ali, ele e sua música, idioma que o salvou da civilização de pedra jogada na cabeça de quem não se encaixa.

    Acompanho sua música. Sérgio Sampaio, dono de uma obra e uma existência singular, era, para Helinho, mais que um irmão. Era ferramenta de trabalho, era inspiração e respiração. Era legado também. Numa cidade em que ninguém se lembra de Sérgio, ele lembrava. Em cada nota, em cada conversa em canto de esquina, em cada encontro. Um dia, Helinho me viu, pediu uma selfie. Tiramos. Depois, dei um abraço. Só um abraço. Pra ele, emoção. Começou a chorar. Era um artista diante de mim, um artista. Essa imensidão que é um artista, esse universo com bilhões de estrelas dentro de dois olhos faiscantes reverberando música, música, música, poesia. Seu irmão cantou o amor, Helinho encontrou no amor, na música, sua salvação. Ele entendeu tudo. Agarrou-se a ela com todos os dentes, com todas as forças, para se salvar. E resistiu.

    Tive a sorte e o prazer de vê-lo em cena diversas vezes. Com seus alunos de violão, obra maestra da humildade dando as mãos ao instrumento. No palco do Teatro Municipal Rubem Braga, convidado por alguns artistas, onde era documento vivo. Em dois espetáculos que dirigi e ele se fazia presente com absoluta certeza entre frases e palavras que se desconectavam e faziam todo o sentido. Tudo se alinhavava na música. Nos acordes dissonantes que estão na raiz. Humor singelo, homem de outro tempo, amante do humano. Cavaleiro, lenda vida, cidadão.

    Agora, anoiteço sabendo que ele se foi. Se foi dormindo. Ou não, talvez cantando, talvez orando, talvez criando uma nova música, talvez fazendo parte das partituras, talvez e se foi, talvez. Helinho Sampaio está aqui num legado de humildade, gentileza e de como ser artista, ser arte, ser artista por completo, entregar-se à linguagem. Ser Hélio e estar no ar, em toda parte. Vai cantando, Helinho. Dona Maria de Lourdes te recebe. Vai, cante, cante, cante. Vai, cantando.

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